Como sobreviver ao dilúvio

Não, não existe arca e nem Noé dessa vez. Nem houve aviso prévio da meteorologia ou tempo de preparo.

O dilúvio veio forte e segue arrastando em suas águas todos que não tinham ou não conseguiram jogar uma âncora em local seguro.

Apesar das águas estarem turbulentas já faz um bom tempo, bem ou mal, a maioria ao menos boiava e se mantinha em direção a algum porto seguro.

Mas nem todos podiam imaginar dias como os de hoje e a grande maioria não havia se preocupado em aproveitar a maré mansa do passado para uma manutenção preventiva em seu casco, suas velas ou motores.

Muito menos em capacitar melhor sua marujada.

E esse é um erro que pode ser fatal! Acreditar que na hora “damos um jeito”.

Pior é o que segue acontecendo: não são todos que se preocupam em mudar de fato seu rumo, aprumar suas bússolas e traçar um novo plano de navegação.

Muitos seguem apenas olhando e se lamuriando, não absorvendo seus erros e culpando terceiros: o governo (que de fato não faz sua parte), a tecnologia que exige cada vez mais apuro nas ações e investimentos, os clientes que teimam em mudar de atitudes e hábitos e bagunçam todas as regras antigas e conhecidas.

E a pandemia: claro que ela causou isso tudo, mas foi catalizadora e expos as franquezas de todos nós, empresas e pessoas.

Sim, tudo isso é fato e muito disso merece mesmo uma reclamação gigante, pelo descaso, pelo mal trato com os pequenos e médios empresários e pela demora em atacar o vírus.

Mas esses são fatores externos…

Já passou da hora da maioria dos empresários fazerem uma terapia em seus negócios e abrirem o espelho para olhar, de olhos bem abertos para suas atitudes.

Afinal, ninguém mais pode ser culpado se o negócio estava e segue sendo gerido como era antes…antes do estrago, da pandemia, da tecnologia, e das novas formas de atender o mercado.

Não adianta fugir do problema.

É preciso ter coragem, fígado em dia e assumir que, em grande parte, os próprios empresários são os culpados pelo que passam hoje.

Olhemos para alguns ou muitos anos atrás.

Quantos pequenos e médios empresários, de fato, usaram ou usam as ferramentas básicas do que possa ser chamado de gestão?

Vivemos trombando com empresas que querem crescer, aumentar seus lucros, virar franqueadores, etc, mas que não conseguem botar na cabeça uma regra muito simples e básica: sucesso e lucro é consequência e não premissa e ele depende, em sua gênesis, de uma coisa chamada planejamento estratégico!

Vemos diariamente donos de empresas teimando em querer continuar a pensar e fazer como sempre fizeram.

Ah! O discurso mudou? Sim….mas a prática não.

Onde está o investimento de pequenos e médios empresários em planejamento, estratégias, processos, capacitação e tecnologia.

Agora não é possível? Mas antes era e não foi feito, e se não for feito hoje não haverá amanhã.

O que estamos carecas de ver e ouvir são discursos, visões de um futuro promissor, mas baseados em que?

Onde está de fato e como é a gestão dessas empresas.

Onde estão os famosos empreendedores brasileiros tão decantados, mas que acham que empreender é “botar a cara e sair fazendo”, confiando em suas (discutíveis) habilidades e competências pessoais?

Cansamos de nos deparar com franqueadores e empresários de outros segmentos que teimam em achar que podem tudo: definem estratégias, tocam seus negócios sem um processo sequer desenhado, não sabem o que são indicadores, definem o marketing e comunicação conforme seus gostos pessoais, não sabem se posicionar em relação a fornecedores, simplesmente aceitando o que eles decidem.

Quase deuses, onipotentes e onipresentes, imaginam soluções simplistas, e seguem levando empresas e marcas para o buraco pela falta de entender e aceitar coisas que são ensinadas no segundo ano de qualquer curso de administração de empresas.

O diluvio está ai, com milhares de barcos à deriva e centenas de portos e boias para serem usados.

Mas quem disse que eles enxergam que devem fazer diferente e se profissionalizarem de fato?

O mundo e o mercado não tem mais lugar para amadores e infelizmente vemos (nesses tantos anos de mercado dentro de centenas de marcas) que cada vez menos se dá importância à lógica, ao conceito claro do negócio, à estratégia, ao planejamento e aos processos.

Processos? Já ouvimos de empresário de grande rede que isso estava na mão de seus advogados….risível, não?

Ou muitos desses empresários aprendem a navegar com a humildade de quem precisa de um contra mestre a seu lado, ou muitos deles irão a pique.

Sim, o perfil de nossos empresários e empreendedores piorou, excetuando aqui os mais novos que partiram para a tecnologia e que viraram do avesso o que era tradicional.

Uma pena, tantos barcos naufragados e a maioria deles por miopia, falta de bússola e de acima de tudo de humildade em olhar para seus negócios e dizer “eu não sei e preciso de ajuda”.

Não só precisam de humildade e ajuda como de coragem.

Nesses dias, um dos novos bancos digitais teve essa coragem: para desconstruir paradigmas e abrir o leque de visões, percepção sobre faixas de consumidores, novos hábitos e cultura atual, convidou a cantora Anitta para o seu Conselho.

Independente de se gostar ou não da Anitta como cantora, não deixa de ser um ato de coragem de quem entendeu que é preciso renovar as práticas, mudar a visão e modernizar a gestão.

O mundo de fato mudou e o empresário que não largar o leme de sua rota antiga, vai ainda encontrar um iceberg pela sempre.

É triste mas é um fato e não é por falta de avisos.